A missão centrada no Evangelho

Por Samuel Matos     5 de abril de 2017     0

Por Igor Miguel

As palavras de Paulo deveriam ecoar permanentemente em nossa consciência missionária: Deus está convergindo todas as coisas em Cristo Jesus (Ef 1:9-10)”

Timothy Keller, em seu livro Center Church, faz uma importante distinção entre o Evangelho propriamente dito e seus efeitos. Infelizmente tendemos a dar excessiva ênfase aos “resultados”, e assim, acabamos por ignorar o “núcleo”, aquilo que é central. A obsessão por resultados pode conduzir o pastor ou o missionário a querer obtê-los a qualquer custo, inclusive ignorando o núcleo da Missão: a mensagem que diz respeito a Cristo, ou seja, o Evangelho.

O núcleo da Missão é a publicitação de que Deus está, em Jesus, reconciliando consigo mesmo todas as coisas. As Escrituras apresentam vários tipos de linguagens para explicar a riqueza contida na mensagem evangélica. Uma delas é comunicar que todas as coisas estão convergindo para Cristo, que Ele se tornou Senhor e que Deus está trazendo a humanidade rebelde para si por meio dEle. O Evangelho diz respeito a Jesus de Nazaré, o Verbo encarnado no tempo e no espaço, na periferia do mundo e na periferia de Israel, para inaugurar um novo reino e formar um povo para a glória  de Deus. A mensagem evangélica pode parecer óbvia, mas ela é central em tudo que fazemos e não só para possíveis convertidos.

Igrejas evangélicas deveriam ser, por natureza, centradas no Evangelho, porém muitas tornaram-se centradas nos ‘resultados’ do Evangelho”

Um dos grandes desafios missionários de nosso tempo é resistir às pressões oriundas de modelos seculares de organização de igrejas e paradigmas de sucesso incompatíveis com a Palavra de Deus. Isto, por um motivo básico: o que caracteriza uma missão de sucesso é sua consistência com a centralidade do Evangelho. Uma missão para ser cristã precisa ter uma identidade autenticamente evangélica, por isso, radicalmente Cristocêntrica. A primazia da Missão não é plantar igrejas, fundar escolas, construir bases e alimentar os famintos. Sua prioridade é proclamar o Evangelho e discipular pessoas, do contrário, a Missão estará comprometida pela presença de um parasita teológico. O missionário brasileiro precisa considerar seriamente que ele pode estar sendo enviado ao campo por uma igreja enferma. E ele mesmo, em alguma medida, pode ser portador de uma doença espiritual. A patologia eclesiástica pode tornar-se uma patologia missiológica. Explico melhor.

Igrejas evangélicas deveriam ser, por natureza, centradas no Evangelho, porém muitas tornaram-se centradas nos “resultados” do Evangelho: crescimento, ação social, educação bíblica e teológica etc. Isso é uma anomalia. Repito: o foco excessivo nos resultados do Evangelho pode fazer com que o principal se perca, o Evangelho mesmo. Se um missionário for ao campo reproduzindo essa anomalia, ele corre o risco de perder o fundamento mais importante de sua missão: Cristo.

Enfim, uma vez que o Evangelho torna-se central, todas as ações serão orientadas a partir de Cristo. O cuidado com os pobres, construções, suporte financeiro, cuidados médicos e plantação de igrejas se tornarão resultados de um compromisso ardente com a centralidade de Cristo e a mensagem evangélica. Quando a missão tem o foco nos resultados e não no Evangelho, ela tende a glorificar o desempenho administrativo, corporativo ou executivo da missão, mas Cristo é pouco glorificado.

Agora, porém, se o núcleo for respeitado como prioridade, os resultados tendem a devolver a glória para Cristo e fortalecer ainda mais a identidade evangélica da Missão. As palavras de Paulo deveriam ecoar permanentemente em nossa consciência missionária: Deus está convergindo todas as coisas em Cristo Jesus (Ef 1.9-10).

 

Autor: Samuel Matos

Sou designer, CEO da Agência Aldeia Thisam, estudante de arquitetura na maior parte do dia e escritor quando dá!
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