Na multidão de conselhos

Por Samuel Matos     5 de abril de 2017     0

Por Luís Nacif

Uma releitura do Conselho Missionário

Em nossa cultura administrativa, seja no setor corporativo, seja no eclesiástico, temos um modo de operar quase sedimentado: quando queremos implementar um projeto ou incrementar um setor, elegemos uma comissão, montamos um grupo de trabalho ou comissionamos uma força-tarefa para executar o trabalho. Acontece que não raro, depois de um tempo definido, os resultados esperados ficam longe de todas as expectativas iniciais, por diversos motivos, como a falta de preparo do grupo, o desconhecimento dos objetivos maiores da corporação ou a falta de autonomia no processo de decisão e execução.

Com a área de Missões da igreja, caímos muitas vezes na mesma armadilha: reunimos alguns interessados (ou, como gostamos de dizer, apaixonados) por Missões, damos a eles a tarefa de ganhar as nações para Cristo, e descansamos, com a consciência aliviada de que estamos cumprindo nosso papel como igreja missionária. Enquanto, isso, a força-tarefa missionária se exaure na tentativa de cumprir seu grandioso papel.

Seja um Conselho Missionário, uma secretária ou um departamento de Missões, alguns passos devem ser dados na direção de capacitá-los para a obra esperada (tratarei o grupo como Conselho Missionário, mas sabendo que há formações diferentes em várias igrejas):

Diversidade

Um Conselho Missionário deve ser formado por mais do que um casal ou poucos interessados. No campo missionário, lidamos com homens e mulheres solteiros, jovens, adultos e gente mais madura, casais com e sem filhos. Assim, é importante termos também no Conselho uma diversidade de conselheiros de Missões, pois a experiência de vida, bem como a juventude, pode ajudar na forma como se vê os problemas no campo. Um grupo formado, por exemplo, só por homens terá limitações para abordar algumas questões específicas do universo feminino de uma missionária.

Um Conselho diversificado, bem preparado, com experiência e autoridade é caminho aberto para um trabalho eficaz no campo. Não se consegue isso da noite para o dia sem trabalho dedicado, e por isso é importante começar o quanto antes.

Preparo

Ser apaixonado por Missões é algo que dá gosto de ver em um crente. Entretanto, paixão sem conhecimento é um canhão sem mira. Mesmo estando no Conselho Missionário de minha igreja por cerca de vinte anos, ainda me sinto engatinhando no assunto quando converso com missionários e missiólogos experimentados. Ler sobre a história de Missões Transculturais, estudar sobre questões básicas de missiologia, procurar se informar sobre o que está acontecendo nas nações, tudo isso faz parte do cotidiano do conselheiro de Missões. Temos à nossa disposição no Brasil materiais, cursos, sites e livros suficientes para nos levar a um nível acima nesse assunto, o que não era algo comum até pouco tempo.

Tempo

Assim como não se forma um bom pastor sem o devido tempo de preparo e, especialmente, experiência, um conselheiro de Missões precisa de tempo para ser formado. O processo missionário é de longo prazo, onde muitos missionários investem toda uma vida no campo, com uma jornada que por vezes passa pelo casamento, chegada de filhos, até a velhice. Para que o Conselho Missionário possa acompanhar bem essa evolução, é interessante que ele não mude sua composição a toda hora. Ainda que seja necessário trocar alguns componentes em certos momentos, a estabilidade do Conselho produz experiência e maturidade nas decisões, bem como dá segurança ao missionário, que tem no Conselho sua ponte para a comunicação com o restante de igreja.

Autoridade

Aqui estou pensando na autonomia na tomada de decisões. Pode demorar um pouco, mas à medida que a liderança maior da igreja sente segurança no trabalho do Conselho Missionário, é importante que ele vá ganhando mais condições de tomar as decisões necessárias sem depender, a toda hora, da confirmação da sua liderança. A distância geográfica e operacional joga contra o missionário, que muitas vezes precisa de respostas rápidas da igreja local para certas decisões no campo. Com um mínimo de autonomia, o Conselho Missionário pode acelerar muitas decisões, sempre alinhado com uma boa prestação de contas à sua própria liderança.

Um Conselho diversificado, bem preparado, com experiência e autoridade é caminho aberto para um trabalho eficaz no campo. Não se consegue isso da noite para o dia sem trabalho dedicado, e por isso é importante começar o quanto antes. A obra de Deus é urgente, mas nem por isso deve ser feita apressadamente. Invistamos em pessoas apaixonadas por Missões, mas que estão dispostas a trabalhar para que essa paixão vire um amor que flui para a eternidade.

Autor: Samuel Matos

Sou designer, CEO da Agência Aldeia Thisam, estudante de arquitetura na maior parte do dia e escritor quando dá!
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